Circo Science - do Mangue ao Picadeiro no Itaú Cultural
- Marília Matos e Rafael de Barros
- 4 de fev. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jun. de 2025
A Trupe Circus, da Escola de Circo Pernambucana apresentou seu espetáculo “Circo Science - do Mangue ao Picadeiro” a convite do Itaú Cultural, no evento “a_ponte – cena do teatro universitário”, nos dias 01 e 02 de fevereiro de 2025.

O espetáculo é uma explosão de imagens e movimentos, que se inicia mostrando a que veio. A frequência que começa alta, não abaixa até o final, nos deixando completamente imersos e mergulhados no envolvente Manguebeat. Os artistas em cena são expressivos, multifacetados e magnéticos. Neste momento ainda não sabemos de suas tantas capacidades, mas vamos nos impressionando com uma dança que pulsa, que nos convida a mover também.
O Manguebeat é um estilo musical nascido no Brasil, justamente em Pernambuco, nos anos 90. Uma das bandas mais simbólicas desse movimento é a “Nação Zumbi”, cujo vocalista era “Chico Science” – de onde criam o jogo de palavras com o nome do espetáculo. Curioso lembrar que Manguebeat surgia como um movimento de reivindicações políticas e sociais. Na época, algumas pessoas até rejeitaram a ideia de misturar os tambores de Maracatu às guitarras elétricas. Porém a mistura se estabeleceu, gerando um ritmo brasileiro, pernambucano, e agora, sendo trilha sonora deste espetáculo de circo que subverte as trilhas sonoras circenses mais tradicionais. Outro dado importante é que a própria Escola nasce nesse período. Em 1996 “surgiu em Recife pela ação de um grupo de artistas e educadores sociais. Sempre teve como premissa a Pedagogia do Circo Social, nosso timoneiro desde lá até os dias atuais” ( para mais informações, acesse: https://escolapecirco.org.br/website/escola-pernambucana-de-circo/)
No início do espetáculo temos um vídeo de Chico Science em uma canoa, próximo a água, falando do Manguebeat. Esse vídeo já circulou muito, desde os tempos da MTV – emissora de televisão aberta que predominava uma programação musical. Depois disso, vemos alguns poemas curtos, de Chico, uma demonstração do universo particular do cantor. Anunciam assim o espetáculo. A transição entre o extraordinário e hiperbólico das acrobacias circenses, com a intimidade tecida entre os integrantes do grupo que dividem não só os treinos, mas também a formação circense no espaço que ocupam na Escola de Circo Pernambucana. As habilidades e a cumplicidade de seus integrantes, são partes essenciais da apresentação.
Uma dramaturgia que encontra caminhos muito bonitos para colocar solos de habilidades de equilíbrio e malabares na construção coletiva que expõe o inconveniente das câmeras e telas que perseguem as pessoas no mundo contemporâneo. Vão tecendo essa mistura de forma que não é um número ou solo, nem tampouco uma composição em cena apenas por fazer a ideia valer, mas sim, um coletivo! Que junto com uma vídeo-cenografia de deleite para os olhos, vão nos enxarcando desse show em que o tempo todo se dobra a aposta! No estilo cirqueiro, de propor sempre algo mais difícil.
Este grupo de jovens incríveis avança nas mais diferentes habilidades, com maestria, expressividade autoral, além da exploração do grande objeto no fundo que se torna escada, moldura, palanque, balanço, banco e que é profundamente incorporado a realização do espetáculo. Estes artistas têm uma força em cena, que vêm de um sentido além do palco. É uma construção técnica, artística e circense, mas também é uma formação cultural de quem faz o seu circo existir no dia a dia. De quem trata deste ofício não apenas como o ganha pão. Trata como parte de suas vidas.
Em 2019, na entrevista com a homenageada do evento, Erminia Silva, ela disse que o que mais se aproxima da organização do circo família, utilizando a referência para falar de um circo mais completo no sentido da formação, era o circo social. Esta organização da Escola Pernambucana de Circo que não apenas deu formação a esses artistas, mas que no fazer não literal de subir a lona todos os dias, de organizar o projeto, de dar aulas, de cuidar da comunicação, de cuidar dos figurinos, de escrever projetos, e ainda, criar artisticamente, ensaiar e treinar antigas e novas bases, forja um circo que dá motivação a quem assiste. Toda a subjetividade das pessoas artistas em cena, carrega essa composição – e comunicam isso para quem assiste.
Não queremos, em nenhuma hipótese, glamourizar a precariedade. A nossa necessidade de realizar muito mais tarefas do que a nossa função e a grande dificuldade que é ser artista independente neste país. Mas sem dúvidas, estar envolvido com o todo de um projeto, te faz pertencente a ele. E sendo um projeto seu, você o mobiliza de uma maneira muito diferente. Além disso, é mais provável que exista uma valorização das demais profissões e serviços envolvidos no fazer artístico, já que as próprias pessoas vivenciam essas posições.
Por vezes em cena, quando assistimos à espetáculos circenses, se vê um circo que parece muito querer ser europeu, ou até estado unidense. Assistir ao Circo Science reafirma caminhos para seguir, uma estética e uma dramaturgia de circo brasileiro contemporâneo.
Parafraseando outro grupo forjado no mesmo tipo de organização, o Circo Teatro Palombar, “periferia é potência criativa”. Assistir “Do Mangue ao Picadeiro” é olhar para uma força que traz caminho de futuro. Seus voos, grandes truques, giros e equilíbrios impressionam, mas a força está principalmente em seu sangue pulsante, forjado num projeto que os alimenta e que viabiliza um sonho de que são parte integral, sua força motriz que é vista em cena.
Dia 08 tem mais uma sessão no “Instituto Pombas Urbanas”. Olha que curioso eles virem neste evento a_ponte justamente para te convidar a fazer uma travessia até Cidade Tiradentes – Extremo Leste de São Paulo, neste espaço que é pura potência. Para também se preencher dessa força pernambucana, que pulsa e nos recarrega enquanto voam em mil peripécias que sentados ali, assistindo ao começo do espetáculo, a gente nem imagina que seriam possíveis.





Comentários